Enquanto houver carne

Zé é proprietário de um barzinho em frente de sua casa, numa das esquinas do Morro Doce (Sweet Hill, costumo dizer), regional de Perus, em São Paulo. Ali vende cachaça e cerveja barata, quase sempre para os amigos ou conhecidos, aliás, a maioria dos que frequentam o estabelecimento. Nos fundos, mantém uma ou duas maquininhas caça-níqueis para quem quiser arriscar uns trocadinhos. Dizem que é proibido, mas não faltam candidatos a perder umas horinhas ali.

Nascido no norte das Minas Gerais, região de Januária, Zé não dispensa uma boa cachaça, um queijim, um doce de leite e um bom dedo de prosa. Até faz uma concessão ao peixe, vez em quando, mas o que não pode faltar na sua mesa é carne vermelha, aliás, presente até no café da manhã. Mesmo na crise econômica, pela qual passamos no momento, ele dá um jeitinho de adquirir sua mistura favorita nos açougues e mercados da região. Pode não ser uma picanha ou um contrafilé, mas se vem do boi ou do borco está tudo bem. Com farinha, então, fica melhor ainda.

Generoso e adepto da fartura, como todo bom mineiro, Zé faz questão de dividir o que come com os demais integrantes da casa. E olha que são muitos: além da esposa, é claro, meia dúzia de gatos e, pelo menos, um cachorro. Era a Suzy, que morreu recentemente, agora é o Willian Bonner, um vira-lata esperto, atirado, parceiro de todas as horas. Os bichanos ainda se contentam com ração, mas o cão segue o cardápio da casa. Não dispensa um bom prato de arroz, feijão e carne mesmo.

Hoje, como em todos os dias, perto da hora do almoço, Zé vai até a cozinha e prepara a sua comida e a do cachorro com carinho, sem nenhuma miséria. Um bifão pra ele, outro pro amigo, que o acompanha escada acima até o bar, todo serelepe. Ele sobe as portas, dá uma organizada no ambiente, encosta no balcão e se prepara para devorar a comida.

Enquanto procura uma vasilha para colocar a comida do cão, entra no estabelecimento um velho conhecido, amigo, freguês, como em todos os dias. Veio atrás da cachacinha para abrir o apetite, como se isso fosse necessário. Ao ver que Zé vai colocar o bife para o cachorro, ele se lamenta: “Puxa, até ele tem carne no prato, eu não vejo isso há mais de ano.”

Não sei quanto a vocês, mas eu, com certeza, teria ficado condoído diante dessa afirmação. O Zé também ficou. Pegou a carne destinada ao cão, na mesma vasilha, e a entregou ao homem, que agradeceu e comeu ali mesmo. Sobrou para o Willian Bonner o arroz feijão de cada dia, além da certeza, de que também colaborou para uma boa ação. Boa noite!

Manoel Dorneles

3 comentários

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  1. Não acho que o William Bonner tenha ficado contente com o prato do dia: arroz, feijão e caridade!