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E o Aparício desapareceu

Na mineira Jatiara, não se fala em outra coisa. Todo ano, toda festa junina ou julina, é sempre a mesma história, a mesma lembrança, o tema de todas as rodas. Aparício, o escrevente do cartório, que namorava escondido Suzy, a filha do delegado local, e que subitamente desapareceu.

Não foi daqueles desaparecimentos premeditados, depois de uma briga com a moça, tampouco o fato se deu após uma descompostura do sogro, que nunca aprovou a união do casal.

Aparício desapareceu na noite de 24 de junho de 1992 e, pode-se dizer, sob os olhares assombrados de quase toda a população da cidade.

Festa de São João no interior é outra conversa. Aparece todo mundo para a comemoração. Primeiro vem o terço em homenagem ao santo que teria batizado Jesus no rio Jordão, cerimônia em que todo mundo participa com muita devoção e fé.

Levava o maior esculacho em público quem não respondesse corretamente as ave-marias e santa-marias do padre Estevão. Condenação ao fogo do inferno, sem escala, era pouco.

Após a oração, tinha o costumeiro sermão do religioso, mais rápido do que o da missa de domingo, sempre a pedir que moderassem nos quentões e vinhos quentes.

E que os rapazes respeitassem as moças de bem da cidade, pois elas com certeza seriam futuras esposas e mães dos filhinhos deles.

Após o padre, é a vez dos organizadores da festa anunciarem as atrações e agradecerem aos doadores de prendas para o leilão. Recado dado, que comecem os festejos. É assim hoje, foi assim sempre, inclusive na fatídica noite de junho de 92, quando Aparício desapareceu.

Sentado em frente à fogueira, me distraio com o crepitar das chamas, a evolução das labaredas e a fumaça que sobe aos céus, e raciocino. Feito um investigador diligente e atento, tento reproduzir em detalhes o cenário do acidente que levou o pobre Aparício.

Do lado direito, estão as barracas de pipoca, pamonha, curau, canjica e milho verde, a de pé de moleque e outros doces mineiros, as barraquinhas da pescaria, do tiro ao alvo, do coelhinho, e assim por diante. Mais além, os mais velhos se distraem com o bingo e o leilão.

Do lado esquerdo, a molecada se diverte no pau-de-sebo e no cercado ao lado, a quadrilha corre solta. Aparício e Suzy dançam animados, olhos atentos à entrada do recinto. A qualquer momento, pode irromper por ali um sujeito troncudo, caras de poucos amigos e, para piorar, com um baita 38 na cintura.

Antes de dar permissão para a filha ir à festa, ele fez uma série de recomendações, entre elas, a de que ficasse a quilômetros de distância do tal Aparício. “Onde já se viu, um pé rapado desses, escrevente de cartório, querendo casar-se com minha princesa! Nem no dia de São Nunca”, costumava dizer um enfezado homem da lei.

Embora apreensivo, ante a chegada iminente do sogro, Aparício nunca esteve tão feliz. A verdade é que, segundo as senhorinhas do largo da matriz, ele também não fazia feio perto de uma das donzelas mais bonitas da cidade.

Felizmente, o pai de Suzy ainda não apareceu, e eles podem dançar a quadrilha até o fim. Daqui a pouco, é hora de pular a fogueira, momento em que se forma um grande círculo ao redor das chamas e, um a um, os rapazes, sempre os mais afoitos, descalços, enfrentam o calor das brasas.

Nesta noite, vemos um eufórico Aparício a prometer à namoradinha que ganhará fácil o concurso de quem permanece mais tempo sobre o braseiro.

Tão excitado está que nem espera a roda se formar e a fogueira se decompor; dá um beijo rápido em Suzy, tira os sapatos e pula sobre os troncos incandescentes. Todos viram quando ele entrou, mas ninguém o viu sair do outro lado.

Como num passe de mágica, ele simplesmente sumiu no meio do fogo e da fumaça. Alguns ainda se aproximaram e pularam no meio das brasas numa tentativa de puxá-lo, mas nem sinal dele. Suzy, estatelada, não acredita no que vê, ou no que não vê, nem chorar consegue. Nem percebe a chegada do pai, que a ampara no seu desmaio.

Cresce o murmúrio no meio da multidão, há quem faça o sinal da cruz, quem reze e outros que se põem a gritar desesperados. Até hoje, o delegado não conseguiu concluir o inquérito, pois não restou nenhuma evidência da sorte ou da morte de seu ex-futuro genro…

Manoel Dorneles 

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