E. A. O. V. PIRITUBA

Peguei uma caixa velha de madeira – dessas de laranja, antes que as caixas de laranja ganhassem formato mais trabalhado, em pinus, a ponto de virarem artigos de decoração – e a pus em pé no chão. No sentido longitudinal, quero dizer, com o lado maior colocado perpendicularmente em relação ao chão de terra.

Hoje, todos os carrinhos de mão – que na minha infância a gente chamava de carriola – rodam sobre pneus. Naquele tempo, não: as rodas eram de ferro, com aros de ferro. E era uma roda dessas que eu tinha à minha disposição, e foi uma roda dessas que eu pus, deitada, em cima do caixote. Atrás da caixa, coloquei uma lata de tinta dessas de dezoito litros, vazia, para servir de assento; entre a lata e o caixote, três tocos de madeira serviam de pedais.

À minha esquerda, tinha um barranco ligeiramente inclinado, e eu enfiei nele, lado a lado, dois pedaços delgados e iguais de madeira. À minha direita, enfiei meio cabo de vassoura no chão. E pronto: tinha num cantinho dos fundos do quintal de casa um autêntico veículo da Empresa de Auto Ônibus Vila Pirituba, um velho Mercedes-Benz que servia para levar meus passageiros – os primos, sempre – até o Mercado da Lapa.

Para quem não conseguiu visualizar, os pedaços de madeira que enterrei no barranco eram as alavancas para abrir e fechar as portas do ônibus. O chiado dos pistões pneumáticos que comandavam o abre e fecha das portas eu tinha de fazer com a boca, mas isso era parte da diversão. E eu passava horas ali, dentro da ilusão comum aos meus dez anos de idade.

Falei em diversão, mas aquilo para mim era mais que isso. Era vocação. Era meu ideal de vida: meu sonho era ser motorista de ônibus, daqueles que não precisavam usar a boca para imitar o abrir e fechar das portas. Cheguei a comunicar ao meu pai – eu disse ‘comunicar’, não ‘pedir’ – que pararia de estudar ao completar os quatro anos do curso primário, coisa que estava próximo de acontecer, e que seria motorista de ônibus.

Não passou pela minha cabeça o que eu faria, dos dez aos dezoito anos, fora da escola, até que tivesse idade para me transformar num dos heróis que controlavam aqueles veículos enormes nas pontas dos dedos. Mas isso não vinha ao caso.

Tanto não vinha ao caso que não parei de estudar, não fiquei oito anos na ociosidade e, enfim, não virei motorista de ônibus: fui desautorizado, simplesmente. Meu pai sequer considerou minha opção vocacional. Não levou a sério minha decisão, e o menino aqui teve de se contentar em continuar na escola e ser motorista de um ônibus que só circulava no quintal de casa. E que tinha de abrir e fechar as portas fazendo o chiado com a boca. 

Marco Antonio Zanfra

4 comentários

  1. Boa tarde à todos!Comecei a rir sem parar no ponto em que li que tinha pedido para seu Pai, meu tio Armando que queria ser motorista de Ônibus estou imaginando a cena “INFERNO”.Muito boa a história!

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