Agora e na hora de nossa morte

O sol, lá fora, jogava seus últimos raios quando já me preparava pra deixar o escritório. Dia estafante. Eu acabara de pôr sobre os ombros o blazer e quando já saía barrou meus passos um cidadão de cara redonda e barba malfeita, exalando um forte odor de álcool. Entre os dedos da mão direita, um cigarro no fim. O desconhecido, de voz tonitruante, apresentou-se: “Eu sou Marlowe e o meu trabalho é trazer à tona histórias que assassinos e prepotentes tentam esconder da sociedade”.

Achei esquisita aquela apresentação, mas abri conversa para saber o que ele queria comigo. “O que me trouxe aqui”, foi-se explicando, “foi um pedido do meu amigo Marco Antonio Zanfra. Ele quer falar com o senhor. Diz ser urgente”.

Quando a ficha caiu, achei graça. Foi por Marlowe que fiquei sabendo que Zanfra estava morando no Sul do País e que se transformara num grande escritor de enredos policiais. Dias depois não só falei com Marco Antonio Zanfra como li seu livro de estreia: As Covas Gêmeas, no qual Marlowe aparece como incansável investigador de uma trama envolvendo pessoas simples do nosso cotidiano. E logo eu quis saber a razão de meu amigo assumir a carreira de romancista.

Zanfra:

Há uma ruptura necessária quando o repórter de polícia passa a ser um autor de ficção policial. Necessária e óbvia, porque, se ao repórter cabe fidelidade apenas ao que é real, ao escritor cabe ser fiel ao mundo, aos personagens e à trama que ele criou. Ainda que a realidade não esteja necessariamente fora desse entrelaçamento. Se essa ruptura é traumática ou não, cabe a cada um que vivencia a experiência avaliar.

No meu caso, a ruptura assemelhou-se mais a uma transição, porque minha ideia inicial de obra tinha fundo jornalístico: propus a um editor transformar em livro uma matéria especial, de duas páginas tamanho standard, que havia feito para o extinto ANCapital, suplemento florianopolitano do jornal joinvilense A Notícia. A matéria tratava dos crimes violentos ocorridos nos últimos dez anos na Ilha de Santa Catarina e que à época continuavam sem perspectiva de solução.

Eu não trabalhava mais na área, mas ainda não havia desvestido minha capa de repórter, e precisaria aprofundar o trabalho de pesquisa e apuração para transformar as 18 laudas originais da matéria num calhamaço que garantisse pelo menos duzentas páginas num livro. Só que o editor não aceitou minha sugestão. Disse que nós estávamos carentes era de ficção policial, que livro-reportagem qualquer um era capaz de fazer e que só os bons escritores conseguiam criar uma trama daquelas que você não consegue parar de ler.

Minha transição começou naquele momento, quando ele me desafiou a ser esse escritor. Deixei minha capa de repórter na rua Esteves Júnior, onde me encontrara com o editor, rumei para a biblioteca pública da rua Tenente Silveira e iniciei naquela tarde meu relacionamento íntimo, que duraria quase um ano, com os mestres da literatura policial clássica, especialmente noir. Devorei Raymond Chandler, Rex Stout, Dashiell Hammett e Ross Macdonald. Numa segunda etapa, conheci Georges Simenon, Michael Connelly, Dennis Lehanne, Lawrence Block e Henning Mankell.

Isso aconteceu em 2004. Ao final de 2005, concluí meu livro de estreia, As Covas Gêmeas. O livro deveria ser publicado pela editora desse meu amigo, mas uma série de circunstâncias impediu a realização do plano. Em 2007, parti em busca de outras editoras e, em setembro de 2008, Danda Prado, então diretora-presidente da Editora Brasiliense, telefonou para me dar a boa notícia. O livro só foi lançado, porém, em dezembro de 2010.

Confesso que me surpreendi com o livro de estreia do romancista Marco Antonio Zanfra. E a respeito, cheguei até a escrever uma resenha: UMA HISTÓRIA PRONTA PARA O CINEMA.

Depois que publiquei a resenha, Marlowe me telefonou. Disse que gostou do texto etc. e tal. E, entusiasmado, teceu loas e loas sobre Zanfra. Até estranhei, mas fazer o quê?

Bom, aproveitei pra perguntar a Marlowe o que ele andava fazendo ao lado de Zanfra.

Com aquela fala mansa, de bobo aparente, própria de investigador, Marlowe puxou fumaça do cigarro e respondeu, pigarreando: “Bom, ele me põe em enrascadas. Melhor, ele me põe pra resolver enrascadas. Acha que sou o melhor policial do mundo, que não há investigador melhor do que eu. Essas coisas de amigo…”

Marlowe aparece à frente de investigações nos três primeiros livros de Marco Zanfra. “Agora ele me deu férias. Diz que fechou, comigo, uma trilogia. Mas já estou sabendo, e não por ele, que já está engendrando mais uma tarefa a que dará o título de Bachiana nº 4. Quer dizer, vai sobrar pra mim. De novo!”.

Não custa lembrar que Marlowe é um policial altamente intelectualizado e até sensível no que diz respeito às artes. Figuraça!

Numa das suas vindas a São Paulo, o escritor procurou-me pra dizer que continuava a criar, ou a recriar, histórias policiais. A tarefa, porém, não tem sido fácil.

Zanfra:

Passei um largo tempo sem pensar em escrever. Só concluí A Rosa no Aquário no começo de 2017 e consegui sua publicação pela Editora Unisul (da Universidade do Sul de Santa Catarina) em abril de 2018. Dali a nove meses, tocado pelo entusiasmo da experiência, terminei O Beijo de Perséfone, que considero minha história mais bem elaborada. Este terceiro livro foi lançado, também pela Unisul, em abril de 2019.

Mas, ao contrário do que aconteceu com o livro anterior, O beijo… foi um fracasso e me desestabilizou. Demorei meses para começar a botar no papel uma nova história, embora tivesse a trama montada na cabeça, fui escrevendo aos trancos e barrancos e só terminei Agora e na hora de nossa morte para inscrevê-lo no Prêmio Kindle de Literatura. Não ganhei nada, mas, entre mais de dois mil concorrentes, não esperava nada, mesmo!

Marco Antonio Zanfra escreve como poucos. É direto, raciocínio rápido. Texto enxuto, sem “linguiça”. Trabalhei com ele na Folha. Fins dos anos 1970. Fazíamos reportagens policiais e entrevistas com bandidos e mocinhos.

O tempo passou e jamais imaginei que o jornalista Zanfra pudesse transformar-se num grande romancista, como se tornou.

Como fazer isso, como começar? O ponto de partida é, naturalmente, saber escrever. Depois, saber o que quer dizer. Saber o que quer dizer e a quem dizer. Uma reportagem malfeita, mal escrita, não prende a atenção de ninguém. Além do texto, que deve ser primoroso, tem que ter título igualmente primoroso e chamariz.

Nascido em 12 de abril de 1956, o paulistano de Pirituba Marco Zanfra é marido de Mary Kazue e pai de Mariana e Mayara, que já lhe deram dois netos: Murilo e Eduardo, o Dudu. Zanfra é um cara incrível e a sua urgência de querer falar comigo, no entendimento de Marlowe, era motivada pela saudade. O amigo jornalista, agora também escritor de renome, disse que perdera a mãe Anna. O pai, Armando, fora-se antes. Mas ainda lhe restam os irmãos Rui e Ana Luíza.

O autor de As Covas Gêmeas é autor também de um Manual do Repórter de Polícia. Esse manual, que deveria ser lido por estudantes de jornalismo e jornalistas da área, tem ao todo 77 verbetes. Foi escrito em 2001, mas até agora não ganhou versão em papel.

E mais não digo, pois desnecessário é dizer o óbvio: Marco Antonio Zanfra é o cara do romance policial do Brasil, hoje.

Assis Ângelo

Serviço:

Agora e na hora de nossa morte (R$ 9,99)

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