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Histórias Reais

Dekasségui

Algum de vocês já andou de bicicleta na neve?
 
Não como aventura ou esporte radical, mas como opção de transporte mesmo. Para ir de casa ao trabalho e vice-versa. Como única alternativa para percorrer três quilômetros e iniciar o expediente laboral, que pode terminar apenas às nove e meia da noite. Ou ku-ji-han, em japonês.
 
Pois eu fiz isso várias vezes, e posso garantir que não é fácil. Principalmente, é claro, porque não está sendo uma aventura ou esporte radical…
 
O principal problema dessa viagem, para quem não sabe, é que você não consegue se mover enfiando aqueles pneuzinhos estreitos na neve fofa. Não anda. É preciso trafegar pelas estrias deixadas pelos pneus dos carros. Quando os pneus passam sobre a neve fofa, eles a compactam. E neve compactada escorrega que é o cão! Cair é inevitável, mesmo com a experiência adquirida durante o inverno todo…
 
Isso sem contar o frio, claro: por mais que você se cubra com dezesseis blusas e casacos, o ar gelado vai conseguir se infiltrar e chegar à sua pele até então aquecida. E no degelo, depois que a neve para de cair, o frio é ainda mais penetrante.
 
Durante quase um ano, entre 1996 e 1997, usei a bicicleta para percorrer – com chuva, sol ou neve – a distância entre meu apartamento e a sede da Kojima, uma empresa terceirizada que cuidava de embalar platôs e discos de embreagem fabricados pela Aisin, que equipavam quase todos os modelos de automóveis produzidos no Japão. Era o primeiro a chegar, às sete da manhã. Por essa circunstância, era responsável por ligar o aparelho de ar quente, que tinha o tamanho de um guarda-roupa de duas portas.
 
O expediente começava às oito, invariavelmente ao som de ‘Morning Mood’ (da obra ‘Peer Gynt’, de Grieg). Enquanto o ar no amplo galpão não chegava a uma temperatura agradável, eu continuava com quinze blusas – havia tirado a décima sexta, uma jaqueta da empresa – e me aquecia, também, enchendo as esteiras rolantes com as peças que meus colegas de trabalho logo mais iriam colocar nas caixas de papelão.
 
Essa unidade da Kojima ficava em Hekinan, onde eu morava – uma pequena cidade à beira-mar ao sul da província de Aichi, com muito vento e uma curtíssima faixa de areia cinza, provavelmente de origem vulcânica, para onde os moradores desciam em busca de mariscos. A cidade tinha alguns atrativos, mas a diversão maior era pegar um trem e sacolejar durante uma hora e quarenta e cinco minutos até Nagoya, a capital da província.
 
Mas, trabalhando das sete às nove e meia da noite, incluindo às vezes sábados e domingos, como encontrar tempo e disposição para ir passear em Nagoya? Resumindo: em um ano e quatro meses, fui só duas vezes!
 
De modo que, nas raras folgas, nosso lazer consistia em passear de bicicleta por Hekinan mesmo. Visitar as lojas de departamento (principalmente as feirinhas de hyaku-en, onde tudo custava cem ienes; é a versão original das lojas brasileiras de 1,99), o aquário municipal, a piscina pública… Ou atravessar uma passarela submarina de um quilômetro até Handa, unicamente pela adrenalina de supor que um tremor mais forte seria capaz de destruir aquela estrutura e nos levar às profundezas do oceano Pacífico, sem volta. Esporte radical de pobre.
 
Por falar em tremor, enfrentei dois. Fracos, entretanto. No primeiro, estava dentro do apartamento, e o efeito era como se uma betoneira estivesse passando pela rua e sacudindo levemente a redondeza. No segundo, estava circulando de bicicleta e o tremelique no subsolo confundiu-se com a trepidação natural do veículo no calçamento irregular. Em nenhum momento senti que seria protagonista de uma tragédia sísmica.
 
A despeito, porém dos tremores, dos tufões e dos pernilongos cujo tamanho lembrava Godzila, nada me pareceu mais desagradável do que a neve. Foi a primeira e única vez que cruzei com ela, felizmente. Agora só, a tolero pela janela ou em fotos.
 
Não sei como tem gente que viaja até São Joaquim (SC) para passar frio e enfiar o pé naquela massa gelada! Ia dizer que é programa de índio, mas, assim como eu, certamente os índios também não gostariam da neve!

Marco Antonio Zanfra

O que o tempo altera e vira história

Agora é hora de contar história.
Deixar o tempo reviver na memória o que foi passado, o que foi emoção, o que foi glória.
Conto um conto cheio de encanto, de alegria ou pranto.
Um final feliz, simples e pronto