De repente, setenta

De repente, me flagro um ser cheio de dúvidas diante de um velho espelho. Que horror! Está na cara que esse cara que me fita com os olhos enevoados pela catarata não tem nada de mim. Não tem o meu viço, tampouco minha força, sequer minha luz interior. Talvez os meus vícios, sei lá. Me transformo no detetive que busca sinais, resíduos seminais. Pesquiso, através das ranhuras, ainda assim. Atrás de rugas, rusgas de um tempo de aventuras. À procura dos vincos, vínculos de um passado que, definitivamente, já passou.

Estendo as mãos, de frente, de costas; afinal são minhas essas mãos, ainda firmes, seguras. Sem marcas escuras, sem manchas impuras, mãos de um menino quase… Besteira, como me confundo. Consciente, tento sufocar com força, bem lá no fundo, o sentimento, a conclusão evidente de que apenas sete décadas fizeram em mim um estrago doído. O pouco que sobrou esvaneceu… Só mais um naco para ser corroído, corrompido, consumido. Paciência, não sou mais dessas paragens, “meu”, nem “tô ligado” nessas modernagens…

De onde vim não tinha Internet, Facebook, Twitter, Whats App, só um carteiro gordo, uma festa para os cachorros da vizinhança. Mas ele era sempre bem. Indo com títulos ou carnês de cobrança; vindo com a carta da menina que ainda usava trança. Ela sempre me queria, pelo menos é o que escrevia. Mas estava tão longe, distante. Só uma foto na estante. Nela me sorria e me acenava com um mimo. Ficou na promessa, parou de escrever, casou-se como todas, talvez com um vizinho ou com um primo, distante o bastante.

Vivi o suficiente para esquecer, como a vida nos ensina. Outras cartas, outras tranças vieram, outras se foram, E eu nem sei se fui feliz. Sei, é minha sina. Não eram tempos de grandes venturas aqueles. Cabia a todo mundo viver, fosse nas incertezas, fosse nas desventuras. Crianças só para brincar, adultos para trabalhar, alguns até casar e ter filhos, e velhos para morrer, malpassados dos cinquenta. Ano vem, ano vai, no correr das horas a vida se esvai. O passado condena, o presente consome, o futuro tenta.

Tive amigos (caros) da largada, muitos já se foram, outros ficaram pela estrada. Tenho amigos (raros) que encontrei pelo caminho, não sei se espero por eles ou me aventuro sozinho. Nesta corrida sem pit stop, o esforço é vão. Ainda assim, sem pódio, sem soldo, sem nada, busco meu quinhão. Que bobagem, quanto desperdício, quanto esforço de graça. Poucos lograram conquistar esse troféu. E os que o fizeram, tal qual cachorros a rondar pneus, nem sabem o que fazer com eles, quando chegam ao céu.

“Niemeyer” desajeitado, sou mesmo um ser de outro século, neste infiltrado, até quando, sei lá. Cada dia mais me isola. O corpo, justo este corpo, um dia capaz de estrepolias mil, anda agora trôpego, manquitola. Ora me surpreende, a implorar pelas antigas folias, ora se rende senil. Já foi para poucos esse árduo ofício de envelhecer. Hoje, um privilégio vazio, todo mundo pode ter. Nem sei se quero, nem sei se sou dessa leva. Inda que não seja minha hora, inda que pouca coisa me enleve, levará um tempo (espero) para eu ir embora…

Manoel Dorneles   

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