Datilografia

Ela não percebia, mas os dedos de sua mão esquerda faziam movimentos ritmados e sequenciais durante o sono. Era como um exercício digital de memorização, imprimindo continuamente as letras A, S, D, F e G nas costas fartas do marido – que se transformavam, no silêncio da noite, no teclado de uma Remington Rand. Ele, aliás, não se importava. Nos trinta e poucos anos de casados, eram raras as noites em que os dedos compridos da mulher não passeavam metodicamente por suas costelas.

Mas agora a pressão das falanges era maior, como se ela tentasse agarrar com as mãos um teclado onírico que insistia em fugir de seus domínios. Às vezes tinha sobressaltos; às vezes, algum tipo de espasmo. Acordava, sempre, com uma visível sensação de angústia.

O marido sentia-se culpado pela agudização do comportamento compulsivo dela durante o sono: fora ele, afinal, quem retirara a placa que durante anos ornara a fachada do pequeno sobrado do casal na zona oeste da cidade e ostentara o orgulho da mulher com sua escola. A retirada da placa depositara a pá de cal num sonho de três décadas, num projeto de empreendimento que garantira durante um bom tempo o sustento do casal.

A remoção da placa não significara efetivamente o fim do sonho – apenas emblematizara a lenta, mas inexpugnável derrocada: a antes conceituada Noblesse-Escola de Datilografia para Moças já não existia mais. Morrera alguns anos antes, estava sendo definitivamente enterrada agora. Mas quem se conforma com a morte real, quem se conforma com a morte dos sonhos?

É certo que a Noblesse teve uma sobrevida considerável, como um doente de câncer que se submete a infindáveis e excruciantes sessões de quimioterapia. Teve até uma tentativa de adaptar-se aos novos e algozes tempos: de escola para moças, passou a ser ‘unissex’ – termo que permanecia na placa até sua remoção; o curso de datilografia passou também a encampar a modernidade da ‘digitação’. Mas quem recorre hoje em dia a uma escola para rabiscar os dedos num computador ou nas teclas virtuais de um celular?

Da antes concorrida saleta com oito máquinas, os alunos foram escasseando. Nos últimos tempos, amigos e parentes mandavam seus filhos para o curso, com o único propósito de emprestar um sopro de vida à escola. Mas os filhos de parentes e amigos também foram escasseando; das oito máquinas, quatro foram vendidas e duas estavam sucateadas, e então o ambiente passou a ser preenchido apenas com um sopro de recordações.

A retirada da placa marcou formalmente o sepultamento do curso. Mas a mulher permanecia lá, todos os dias, como se as adolescentes que pretendiam trabalhar como auxiliar de escritório fossem voltar de uma hora para outra. Enquanto elas não voltavam, a professora cumpria religiosamente o horário que estipulara desde que abrira o curso, e ficava preenchendo inúmeras e inúmeras folhas em branco, com o exercício A-S-D-F-G…Ç-L-K-J-H.

À noite, depois de um estafante e frustrante dia de trabalho, ela ia para a cama e transferia os exercícios para as costas do marido.

Marco Antonio Zanfra

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