Dá um caldo ou não?

Desde que adotaram o “politicamente correto”, qualquer coisa que se fale ou escreva, dá polêmica e me deixa confusa. 

No Tocantins, e em outros estados, há muitas expressões típicas, usadas cotidianamente, que nunca foram questionadas nem tachadas de preconceituosas, machistas, ou seja lá o que pensam os “patrulhadores” de plantão.

Dizer que alguém “dá um caldo” é uma delas. Aliás, apesar do calor, os moradores daqui adoram um caldo quente! Daí, a expressão. Acho até que, por causa disso, criaram a expressão, para dizer que alguém está com tudo em cima, que é bonito (a), gostoso (a). Uma expressão normal e corriqueira, até o governador Mauro Carlesse usá-la, referindo-se à prefeita de Gurupi, Josi Nunes, na posse dela. “Machista” destaca até o título da matéria que – pasmem – foi feita pela TV Anhanguera do Tocantins. Falta de assunto ou desconhecimento do repórter? Perguntas que passaram pela minha cabeça. Mesmo que o repórter seja de outro estado, a emissora tem editores e produtores que conhecem o Tocantins e vivem aqui, há 15, 20, 30 anos!

Ei, eu também falo isso, para muita gente! Sou “machista”???? 

Mas lá estava a reportagem, em todo o Brasil, via Rede Globo!

“Imaginem como se sentiram a mãe e o marido da prefeita, ao ouvir”, comenta um amigo, do Ceará. “Não é frase nem para conversa de boteco!”

Sentiram orgulho ou nada, respondo. É um elogio!!!! A prefeita, com mais de 50 anos, realmente, dá um caldo! E dos “bão demais”, como diria o povo de Goiás.

Dias antes, no trabalho, eu mesma havia dito a um diretor que ele “ainda dava um bom caldo”. Preocupada com a repercussão da fala do governador, perguntei se não mais poderia elogiá-lo dessa forma. “Pode, sim”, garantiu o diretor!

Outra particularidade no Tocantins é usar os diminutivos sem o “nho”, para se referir a várias coisas, inclusive distância. “É pertim, pertim.”  “Chego loguim,” Um aviso: o “pertim” é longim, longim, do tipo “logo ali”, de mineiro; o “loguim, umas duas horas, no mínimo. 

“Neguim”, o diminutivo de neguinho, também faz parte do vocabulário local. Vale para brancos, negros, pardos, indígenas e significa pessoa, fulano, querido etc. Mulheres, homens, LGTBs, patrões, empregados, todos usam, o tempo todo!!! É preconceituosa? Ou se torna preconceituosa, se uma autoridade usar, numa cerimônia? Tipo: “Ei, neguim, seu trabalho é fantástico!” Ou, se for uma mulher, para o marido, namorado, amigo: “Neguim, dá um ‘xero’.” E o cara é loiro de olhos azuis!

O Tocantins tem até um ex-governador, hoje deputado federal, que adotou “gaguim” no nome. Não, não é o sobrenome dele. Nem se trata de bullyng. No início da construção de Palmas, lá pelos idos de 1989-1990, ele gaguejava, sim (acho até que ainda gagueja, de vez em quando…). Frequentador assíduo da Assembleia Legislativa, um prédio improvisado de madeira, contam que ele dormia lá (a capital provisória era Miracema e todo mundo tinha de viajar, por estrada de terra, todos os dias). De acordo com a “lenda”, uma faxineira o acordava logo cedo, antes da chegada dos deputados. E ele prestava serviços aos parlamentares que só o conheciam como Gaguim. Não, não era para ofendê-lo ou diminui-lo. Ao contrário: não sabiam como se chamava e queriam sua atenção, para pedir alguma coisa. O apelido pegou e ele adotou: virou Carlos Gaguim. O nome de batismo? É Carlos Henrique Amorim. Demorei anos, para descobrir!

O Gaguim se destacava numa coisa que vi acontecer, muitas e muitas vezes. Sempre que tiravam fotos ou filmavam autoridades, alguém superior a ele, lá estava, sempre atrás da pessoa. Típico “papagaio de pirata”. Não era elogio; era gozação. Nunca se sentiu ofendido e levava na brincadeira. Quando se tornou governador, por eleição indireta, disse à imprensa: “O papagaio de pirata virou capitão”. 

Se, depois de ler o texto, ainda acharem que expressões ou formas de tratamento regionais são machistas, preconceituosas, bullying ou sei lá o quê, viajem pelo Brasil. Só dá para saber a riqueza do idioma local de cada estado, ouvindo in loco!!!

Uma coisa é certa: em nenhuma região do Brasil as pessoas vão confundir “tratamento precoce” com “atendimento precoce”!!!! Nem os leigos em Medicina! 

Célia Bretas Tahan

Um comentário

  1. No meu modesto entendimento – e posso estar errado nessa compreensão mais do que machista – quem dá um bom caldo é galinha velha, que faz a alegria de quem aprecia uma canja.

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