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Crise de identidade

Apresentei a passagem e a carteira de identidade ao motorista, que estava em pé na porta do ônibus. Ele olhou para as duas com um olhar aparentemente perscrutador, dedicou-lhes alguns segundos de atenção e as devolveu com um meio sorriso:

– Poltrona dezenove, seu Carlos…
– É Marco! – retruquei.

Ele reteve um pouco mais a passagem e o documento que iria me entregar, dirigiu-lhes novamente seu olhar aparentemente perscrutador, verificou o engano e sacudiu a cabeça, como uma espécie de reinicialização de um sistema que havia falhado:

– Puxa, onde foi que eu li Carlos? 

Boa pergunta, eu ia dizer. Mas preferi ficar quieto e aboletar-me na poltrona dezenove, de onde não deveria sair pelas próximas oito horas. A questão não abandonou minha cabeça, entretanto: por que Carlos? A carteira de identidade leva claramente o nome que meu pai ditou ao escrevente do cartório de Pirituba em abril de 1956; o bilhete foi emitido a partir dos dados da carteira… Logo, por que Carlos?

Passou-me rapidamente pela cabeça que aquilo podia ser um teste: eu poderia estar com a identidade e a passagem que não me pertenciam, vai saber… Podia tê-las roubado. Podia ser um foragido da justiça. Podia ser, quem sabe, um sequestrador de ônibus. Ele usou Carlos aleatoriamente, como poderia ter usado Francisco ou Reginaldo. A questão era se eu não reagisse diante do nome errado:

– Arrá! Se o nome na carteira é Marco, por que o senhor não falou nada quando o chamei de Carlos!?

Pode ser também que seu olhar não era assim tão perscrutador e atento quanto eu julguei que fosse necessário naquele momento. Afinal, ele ia passar as próximas oito horas de olho numa estrada de pista única, atulhada de caminhões e buracos, e não ia perder seu tempo e sua atenção com uma questão corriqueira como o nome correto de um de seus passageiros, das dezenas que ele transporta todos os dias.

Mas, pensando bem, corriqueira é o escambau! É minha história, esse nome que inda hoje carrego comigo, como diria Chico! É meu patrimônio imaterial! Eu já me sinto incomodado quando recebo como Marcos a resposta a um e-mail que enderecei como Marco, como se a cada escala na rede o nome ganhasse um S, e após a troca de muitas mensagens eu passasse a me chamar Marcosssss… O que dizer quando o nome é simplesmente trocado, e não apenas ganha um S?

Reflita comigo: se chamassem São Paulo de São Pedro ou Florianópolis de Deodorópolis, não estariam apenas trocando de nome, mas de cidade! Mudando meu nome, estão mudando minha identidade, minha história, meu currículo, meus defeitos e qualidades! Capaz até de suspenderem minha aposentadoria. Ou de não ser reconhecido pelo cachorro! Nome é patrimônio, como eu já disse! Nasce com ele, morre com ele! Só muda se você quiser, e com autorização da justiça. Um motorista de ônibus não teria esse poder discricionário!

Confesso, porém, que pensei nisso tudo antes de o ônibus deixar a rodoviária. Minha indignação já fazia parte do passado assim que cruzamos a ponte Colombo Salles. A jornada era muito longa e cansativa para ficar sendo ocupada por uma questão corriqueira. Só voltei ao assunto comigo mesmo na hora da chegada, tarde da noite, enquanto descia cuidadosamente – por medo de me estatelar – as íngremes escadinhas do ônibus. Pensei em me despedir do motorista para ver sua reação, mas ele nem olhou para mim, ocupado que estava em preencher seu relatório de viagem.

Mas foi melhor assim, acho! Seria frustrante descobrir que eu tinha sido apenas mais um Carlos em sua vida e que ele já havia esquecido disso depois de apenas oito horas ao volante! 

Marco Antonio Zanfra

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