Botamos os russos na roda, de novo

Todo mundo já ouviu falar que futebol é uma caixinha de surpresas; é matemático, 11 contra 11; é ligado ao marketing, idem; à publicidade… hum, pode ser. Falo isso, a propósito de um embate futebolístico de que participei na França, em junho de 1994 – puxa, já se vão 27 anos –, durante o Festival de Filmes Publicitários de Cannes. O evento precede o festival de cinema, geralmente realizado no mês de maio. Naquele ano, o prêmio maior da publicidade mundial (Cannes Lyon) coincidiu com a Copa do Mundo de Futebol, disputada nos Estados Unidos e vencida, na bacia das almas, pelo Brasil. Antes de mais nada, devo dizer que quando o assunto é futebol, dou meus chutes; no campo ou na quadra, não cheguei a ser um craque, mas sempre fui meio exibido. Adoro um bate-bola, aliás, ainda hoje, bem passado dos 60, continuo dando minhas caneladas.

Era 20 de junho, dia da estreia do Brasil na competição contra a seleção da Rússia. Fazia pouco tempo que a União Soviética tinha se desmantelado e os publicitários russos pareciam doidos para provar ao mundo ocidental, que continuavam “os caras”. Que viviam já numa espécie de democracia, faziam uma publicidade bacana e, nos gramados, já não eram mais os “joões”, como outrora os apelidou um tal de Mané Garrincha. Como dividíamos o mesmo hotel com eles, assistimos a partida juntos no saguão. Vai daqui, vai dali, 2 a 0, para o Brasil, gols de Romário e Raí, se bem me lembro. Nem zoamos muito, para nós, deu a lógica. Com a perda dos reforços da Ucrânia, Lituânia e de outros países do extinto bloco soviético, o time deles tornou-se bem mais ou menos. Também não valia a pena tirar sarro de uns caras pra lá de simpáticos.

Ao final, festejamos juntos, acho até que alguém apareceu com uma daquelas vodcas meia boca que eles têm aos montes, o que justificou ainda mais a bebedeira. Às tantas, um deles propõe uma revanche no dia seguinte, nas areias grossas da praia de Cannes: um contra (Brasil e Rússia), entre jornalistas e publicitários de um lado e de outro. O sol se põe tarde no verão europeu. Com temperaturas, bem acima de 30 graus, aproveita-se a praia até 21, 22 horas. A faixa de areia não é muito larga, por isso não é permitida a prática de esportes no local. Claro, bons brasileiros que somos, por volta de 18 horas, arrumamos uma faixa de areia num ponto mais isolado, improvisamos dois gols e fizemos o racha ali mesmo. Sete para cada lado, fora os reservas. Foi o acontecimento daquela tarde-noite na praia da Riviera. Juntou gente, câmeras a postos, os cinegrafistas russos acompanhavam cada detalhe da peleja. Entravam no “campo”, davam zoom pra cá, zoom pra lá, mostravam os lances nos mínimos detalhes. Tínhamos um ou outro craque, entre eles, alguns publicitários, cujos nomes não lembro agora, e, também o Adonis Alonso, meu parceiro na defesa, e o fotógrafo Alê Oliveira lá na frente. Curioso que ele cumpria bem a dupla função, jogava um tantinho, pegava a câmera e fotografava, uma festa.  

A pelada terminou 4 a 2 para nós. Nem ligamos tanto, eles, pelo contrário, tomaram a coisa a sério. Levaram as filmagens para a Rússia, editaram, fizeram um vídeo e, no ano seguinte, trouxeram para que o víssemos. Não satisfeitos, mal viam alguém do nosso time pelos corredores do Palais du Festival e já nos desafiavam para uma desforra. Tanto insistiram que marcamos um novo embate. Na data aprazada, entretanto, eles nos esperaram na praia, mas a maioria de nossos “atletas” preferiu uma das festas programadas anteriormente por uma de nossas agências. Só no dia seguinte, descobrimos que a coisa ficou mesmo “ruça”, tipo assim uma Guerra Fria. Pedimos desculpas pelo furo, mas eles, irritados por terem perdido a oportunidade de vingança, nos evitavam, mal falavam conosco. E foi assim que, naquele ano e nos que se seguiram, vimos rompidas nossas relações publicitárias e futebolísticas com os representantes do gigante do Leste Europeu. Aliás, até brincávamos que, caso houvesse algum agente infiltrado no grupo, o risco maior era o de nossas fotos caírem em poder da então sinistra KGB.

Manoel Dorneles