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Bodas de Prata

Ouça a minha narração do texto

A gente pode comemorar uma separação?

Pois cá estou eu, neste 17 de março, comemorando Bodas de Prata ao contrário: completo vinte e cinco anos de um descasamento muito feliz e harmonioso com a bebida. Sabe aquele padrão Alcoólicos Anônimos, segundo o qual a sobriedade se mantém um dia após o outro? Pois são 9.132 dias após o outro, incluindo os anos bissextos.

Nesses vinte e cinco anos, apartei-me totalmente do álcool: nem bombom com licor de cereja, nem pavê – ou pacomê? – temperado com martini ou rum. Cerveja, só sem álcool, e ainda assim umas poucas vezes – porque, convenhamos, cerveja sem álcool não tem a menor graça!

Confesso que, como havia avaliado certa vez Humphrey Bogart, eu e a Humanidade estamos algumas doses atrasados. Tornei-me um chato, para deixar mais claro: não suporto festas, não frequento reuniões em que todo mundo bebe, evito pessoas que falam engrolado e cheiram a bebida, detesto bêbados, abomino pessoas que posam para fotos com um copo na mão, esbravejo contra imagens de churrasco e cerveja com a legenda ‘dando início aos trabalhos’… Ou seja, renego tudo o que fazia naturalmente quando bebia!

Mas, mesmo admitindo os percalços de minha rabugice, sou forçado a reconhecer que o desenlace teve seus fatores positivos. O primeiro deles é que estou vivo! Se tivesse continuado no ritmo do consumo em que cheguei, dificilmente estaria encarando o século 21!

E, por continuar vivo, posso dizer que fiz uma curva de cento e oitenta graus em minha trajetória. Há pessoas que sobrevivem a um acidente e dizem que nasceram de novo. Pois eu, respeitadas as circunstâncias e evitando-se a pieguice, posso dizer que nasci de novo. Eu, que roçaguei o fundo do poço, voltei à superfície.

Ao me libertar dessa união desastrosa – cujo fim estou agora brindando – recuperei a união original com a família, recuperei a carreira profissional, a dignidade, o respeito, a autoestima. Reconstruí em parte o que quase vinte anos de dependência alcoólica destruíram por inteiro. Em volta da minha vida, ainda há uma placa, já um pouco desgastada: “Desculpe o transtorno. Estamos em reconstrução.”

Isso significa que ainda não parei. Só os alcoólatras sabem a extensão dos danos sofridos e causados e o quanto custa recuperar tudo isso. Creio que quem afundou jamais vai contentar-se em chegar ao rés do chão: quer voar, alcançar as alturas. Só um salto para o alto vai recuperar o oxigênio perdido durante o período abaixo da superfície.

De modo que a comemoração não é um fim em si, mas o registro de mais uma marca ultrapassada!

Tim-tim, pois! Um brinde! Com suco de laranja!

Marco Antonio Zanfra

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