Barata tonta

Descobri dia desses que a expressão ‘barata tonta’ não tem qualquer fundamento científico.

Criado provavelmente num momento de despeito por um ser muito mais frágil que elas – incapaz de sobreviver, por exemplo, a uma catástrofe atômica – o epíteto atribui às baratas um senso de desnorteio que elas absolutamente não têm. Tonto é o ser humano, que, diante da visão de uma cascuda com as antenas tremelicosas, não sabe se saca um chinelo ou sobe numa cadeira.


Pesquisadores que estudam o comportamento de fuga de um animal frente a um predador descobriram que a barata não foge aleatoriamente quando se defronta com a ameaça de uma chinelada, mas escapa em direções predeterminadas, que variam de 90 a 180 graus de divergência do ponto onde se encontra o perigo. Essas rotas alternativas seriam controladas por um sistema neural e a variação no ângulo de escapada evitaria que o predador ‘aprendesse’ o padrão de fuga.

Tudo muito estratégico!


Não sei até que ponto essa descoberta pode efetivamente contribuir para o futuro da Humanidade – a não ser, claro, para nos orientar sobre os ângulos preferenciais aonde direcionar o chinelo – mas sei que a constatação veio acrescentar mais um quesito ao já extenso rol de coisas inexplicáveis, para mim, na construção do Universo. Por exemplo: não bastava ser apontado como resistente a uma guerra nuclear e às altas temperaturas, temos agora de conviver com a informação de que o bicho é estrategicamente dotado para a fuga?


A barata é apenas um dos muitos seres vivos para os quais eu não consigo encontrar uma justificativa de existência. Tenho aqui comigo um plano para um futuro que espero ainda bastante remoto: se for comprovada a existência de Deus, e se for confirmado que é Ele o responsável por essa balbúrdia toda, quero ter com ele, quando chegar a hora, uma audiência onde me seja apresentada, detalhadamente, a explicação para a necessidade de criação de uma série de viventes, que, para mim, são absolutamente inúteis, nocivos, aterrorizantes, incômodos e, às vezes, metidos a besta, como a barata.


Duvido que Ele me receba – deve ter uma rede de assessores do segundo escalão para atender à imprensa, especialmente aos que já atingiram a condição de procurá-Lo pessoalmente – mas, se o fizer, quero que me explique tintim por tintim, minuciosamente, que motivos O levaram a obrigar-nos a conviver com as cobras, os pernilongos, os sapos, as aranhas, os escorpiões, os ratos, as moscas, os ácaros, as formigas, as pulgas, os carrapatos e mais uma infindável série de parasitas, animais peçonhentos, hospedeiros e vetores de pestes ou simplesmente perturbadores de nosso sono que nos acompanham do nascimento à morte.


Vou avisando que não aceito a simples menção a uma provável cadeia alimentar para justificar a existência do rato, como virtual fonte de proteínas para a cobra – pois, se não fosse criado um, não precisaria ter sido criado o outro, e nós não sentiríamos falta de nenhum dos dois – ou a atribuição de minúsculas e imperceptíveis funções às formigas, por exemplo, alegando que somente nas horas vagas, depois do incansável trabalho de garantir a drenagem das águas pluviais, é que elas invadem nossas casas. Não me basta isso.


Quero explicações consistentes e que não admitam réplicas. Só assim eu consigo me conformar com o fato de tê-los como parceiros no meu dia a dia. E com a triste certeza de que, muito depois de a Humanidade desaparecer da face da Terra, as baratas ainda estarão por aí, exercendo sua capacidade de fuga.

Marco Antonio Zanfra

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