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Apocalipse now

Quando cursei o catecismo para fazer a primeira comunhão, mais de remotos cinquenta anos atrás, acostumei-me à ideia de que Deus acabaria com o mundo de uma só tacada. De tanto ouvir a alegoria do Juízo Final, dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse galopando pelos céus enquanto a terra era consumida em chamas, achava que o chão se abriria, tragando os infiéis e iníquos para as profundezas, e garantindo aos justos a recompensa da Vida Eterna. Tudo isso duma assentada só.

Nunca li a Bíblia – aliás, o livro mais longo que consegui ler foi “Chatô”, de Fernando Morais, e mesmo assim pulando algumas partes – mas sei que ela foi escrita numa linguagem que permite interpretações pessoais, como o horóscopo. De modo que minha visão do Armagedon foi seguramente a visão do Armagedon elaborada pela interpretação pessoal da catequista Salete, que me preparou com seus ensinamentos para que eu me tornasse o cristãozinho exemplar que nunca fui.
 
Ou seja, podia não ser bem assim.

Hoje, com a visão crítica um pouquinho mais acurada do que na meiguice de meus oito anos, tenho uma teoria: o Juízo Final já começou. E começou pelas mãos de um quinto Cavaleiro do Apocalipse, representando a Natureza ensandecida pela sede de vingança.

Minha suposição tem sustentáculos bíblicos, se for necessário: Deus não levaria apenas um dia para destruir o que consumiu, segundo a teoria criacionista, seis dias para construir. Outro: o que é o tempo, para Deus? Dizem os fiéis que um minuto para Ele pode representar séculos e séculos para nós, insignificantes mortais. Por isso, o Dia do Juízo Final divino pode corresponder a Milhares de Dias do Juízo Final humanos.

Mas a base mais sólida para crer que o Apocalipse já começou tem natureza empírica: basta alinhar as catástrofes naturais que, nos últimos anos, têm acabado com significativa parcela da população mundial. Tsunamis, vulcões, terremotos, inundações, queimadas… Estas últimas cheias no Espírito Santo e em Minas não são a reedição do Dilúvio, muito mais devastador porque não há, em contrapartida, uma reedição de Noé?

Não há entre os Cavaleiros do Apocalipse um que galope um cavalo verde, insinuando que a Natureza esteja capitaneando o Juízo Final aos que a afrontam. A única referência ao verde estaria num amarelo-esverdeado que representa a cor dos cadáveres em decomposição e tingiria a pelagem do animal onde cavalga a Morte. Mas a simbologia das cores não deve ser vista com muito rigor, já que o cavalo branco, na Bíblia, representa o Anticristo, e não a Paz.

Há muito tempo a Natureza vem exercendo seu direito de legítima defesa. As mudanças climáticas matam 325 mil pessoas por ano, segundo levantamento do Fórum Humanitário Global. Em 2030, de acordo com suas previsões, a temperatura média do planeta terá subido dois graus e, embora haja quem ache o aquecimento global uma balela esquerdista, os mortos chegarão anualmente a 600 mil. Em alguns séculos – ou minutos, para Deus – a quantos chegaremos? Parece irreversível. Os dinossauros certamente não foram extintos de uma hora para outra.
 
Os homens também não o serão. Mas, em vista destas últimas inundações, as expectativas sombrias são de que eles irão, aos poucos, desaparecer sob as águas das chuvas.

Marco Antonio Zanfra

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