Ao terceiro dia

Para aqueles que, como eu, são fãs dos filmes de terror e estão acostumados às manifestações físicas, sensoriais e ectoplásmicas dos que não se conformam em partir desta para a melhor, não há susto que não seja administrável. Manifestações pós-morte absorvidas em episódios fantasmagóricos ajudaram a formar uma geração impermeável ao medo de mortos-vivos de qualquer espécie. Não há cadáver contando até dez na geladeira que provoque arrepios nos filhos dessa classe de discípulos do sobrenatural. Tudo é muito corriqueiro, previsível e, de certa forma, engraçado.

Mas isso só funciona assim com essa legião de escolados, para quem o Além é logo ali e os fantasmas e outras formas de espectros são tão recorrentes quanto um bocejo. Com os que tratam a morte simplesmente como uma cessação de movimentos e os mortos como meras carcaças compostas de ossos, músculos, pele e vísceras, a compreensão de alguns fenômenos pode se dar de maneira diversa. Com os trabalhadores cujo ambiente de trabalho é a morte – como legistas, coveiros, embalsamadores, para quem o cadáver é apenas matéria-prima à espera de manufatura – a absorção de acontecimentos extraordinários pode ser a mais pragmática ou a mais estapafúrdia possível.

Se você está a passeio por entre as frias mesas de aço de um necrotério, por exemplo, e de repente um dos hóspedes resolve se mexer… o que pensar? Não vou garantir que nós, os fãs de filmes de terror, não tenhamos um pequeno tremor de susto com a ligeira alteração da cena previsível, mas é coisa passageira. O prazer cinéfilo de acompanhar os próximos passos do enredo vai suplantar qualquer tentativa de nos meter medo que o diretor do filme tenha concebido. A vontade de seguir o desenrolar das cenas vai ser naturalmente maior do que a vontade de sair correndo.

Os pragmáticos também não vão sair correndo, mas é por outro motivo: vão achar que aquele corpo até então inerte foi acometido por espasmos pós-morte, por alguma descarga de eletricidade estática mal resolvida, e que logo em seguida a normalidade voltará a reinar sobre a passividade da morgue. Mas os estapafúrdios… ah, esses vão engolir qualquer explicação, de espasmos a inaceitação da morte, mas só depois de três dias, quando pararem de correr. Tudo pode ser explicado, segundo eles, depois que a adrenalina for diluída pela corrente sanguínea. Até lá, sai da frente!

Essa situação toda me meio à lembrança assim que li a história do pastor lá de Goiatuba, em Goiás, que morreu agora no dia 22 de outubro e prometeu que voltaria dos mortos. Em 2008, ele havia escrito uma carta-testamento em que determinava que seu corpo não fosse enterrado, porque ele ressuscitaria em três dias. Obediente, sua viúva ‘temporária’ – deixaria de sê-lo caso ele voltasse, certo? – cumpriu à risca os desejos do marido e reteve o sepultamento até a noite do dia 25.

A cidade com pouco mais de 34 mil habitantes parou para acompanhar o enterro, e houve até coro de ‘abre, abre’ na hora de o caixão baixar à cova, na expectativa de ver o pastor cumprir sua promessa. Mas ele continuou morto. E evitou, creio eu, um baita susto na multidão que se acotovelava à beira da sepultura.

Há registros históricos de alguém que teria ressuscitado ao terceiro dia após a morte, mas isso é uma coisa muito antiga, coisa de mais de dois mil anos atrás. Tem gente que acredita, tem gente que não acredita. O povo de Goiatuba teve, pelo menos, a possibilidade de verificar in loco se a ressurreição era mesmo a sério.

Marco Antonio Zanfra

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