Adeus, Lancelot!

Disseram que ele ia dormir numa cama maior, mais macia, num cantinho aconchegante, cheirando a jasmins, ou pão de queijo, ou hortênsias, ou biscoito de polvilho, dependendo da vontade dele; e que ia poder comer o que bem entendesse, manga, mamão papaya, bolachas de água e sal, caldo de galinha ou arroz passado na gordura da carne assada, e que não teria jamais de se preocupar com sua tendência a engordar; que ele ia poder de novo correr nos gramados dos campos elísios, atrás da bolinha verde de borracha, que teríamos de arrancar cheia de baba de dentro de sua boca, porque suas patas doloridas teriam a estrutura de cartilagens totalmente renovada e ele não andaria mais com as pernas tortas e claudicantes; que ele poderia brincar de novo com a Cacau, que parecia uma criança brincando de meias na terra, correndo com ela pelo terreno arenoso do quintal dos fundos, dando dribles e pinotes como só os quadrúpedes conseguem, coisa que não faziam desde que ela se foi, há cinco anos; que, tal qual Wolverine, sua pele rasgada pela coceira incessante de uma alergia nunca diagnosticada adequadamente seria por milagre restaurada, e a coceira seria transformada em passadas de uma escova de cerdas macias em seu pelo sedoso e cor de suspiro gratinado; que o cheiro rançoso de sua pele doente pela alergia seria substituído por um essência de capim-limão, igualzinho ao que ele conseguia quando mergulhava atrás de sabe-se lá o quê na touceira que existia no quintal da frente; que ele ia finalmente corrigir sua deficiência visual congênita e, mesmo sem óculos, enxergar qualquer estranho que se aproximasse do portão; que seus ganidos de dor parariam de ecoar pela casa e o som seria transformado em acordes da Ária na Corda Sol, de Bach; que ele ia ficar totalmente calmo, ou totalmente nervoso, sem dar satisfações a quem quer que seja que questionasse sua bipolaridade; que ele ia finalmente ser levado a passear pelas ruas, porque as ruas do lugar aonde foi são livres, limpas, ensolaradas, e não é preciso usar corrente ou coleira.

Disseram também que ele se transformara numa estrela, e que eu poderia vê-lo todos os dias, entre 6h02 e 6h04, logo acima do horizonte, porque, afinal, durante muito tempo ele foi uma alvorada em nossa vida.

O que eu respondi? Que, mesmo se tudo isso fosse verdade, não compensaria a dor que sentimos por sua partida…  

Marco Antonio Zanfra