No começo dos anos 70, quando trabalhava na Light como desenhista, tive um chefe que, volta e meia, pegava alguém para pregar a sua “filosofia de vida”. Ele sempre terminava com a frase: “Esse é o meu sistema de coisa”!

Desde então fiquei com essa “coisa” na cabeça!

O que vem a ser exatamente essa coisa? Seria alguém? Porque eu me lembro na minha infância as meninas sempre chamavam as outras de “coisinha”.

― Oi coisinha… vamos brincar de “passa anel”?

A coisa, às vezes, pode ser um problema sério… “A coisa tá feia!” Pode ser um espanto, uma surpresa boa ou ruim… “Que coisa!” Ou “Essa coisa vai acabar mal!” Mas também pode ser algo surpreendente ou decepcionante… “Grande coisa!” Ou uma opinião meio cabulosa sobre alguém… “Coisa boa não é!”  Mas também pode não ser nada disso… pode ser outra coisa! Pode ser essa minha mente… que não é lá grande coisa!

Às vezes tem alguém metido a esclarecer a Coisa e acaba confundindo ainda mais: “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa!”. Meu, assim não dá… a coisa acaba mal!

Fico impressionado com a capacidade da Coisa em se metamorfosear!

― Acho que vou vestir qualquer coisa!

― Quer saber? Vou comer qualquer coisa e pronto!

― Qualquer coisa que você fizer está bom!

― Ponha uma coisa na cabeça…

Difícil interpretar a Coisa! Caetano Veloso, numa bela canção, começa assim: “Alguma coisa acontece no meu coração…” Sim, mas o quê? Um entupimento de artérias? Uma parada cardíaca? Bem, alguma coisa é, mas… o quê?

Às vezes pode ser uma solução em andamento: “Qualquer coisa, pode me ligar!” Aí você liga:

― Oi! Sou eu… sobre aquela coisa… decidiu?

― Depende… que coisa?

― Como que coisa? Aquele negócio, cara! Esqueceu?

― Negócio?

Nesse ponto surge outra velha dúvida: o negócio! Que negócio é esse? Bem, pode ser o início de uma explicação salvadora: “O negócio é o seguinte!” Ou pode ser uma atitude, talvez, depravada ou condenável… “Não quero saber desse negócio na minha casa!”

Se por um lado a Coisa é um mistério indecifrável, nunca sabemos exatamente do que se trata, o Negócio dá algumas dicas e joga alguma luz sobre a questão. Porque a Coisa, enquanto se esconde por labirintos impenetráveis, o Negócio se expõe, se mostra e diz a que veio:

― E aí… trouxe a coisa?

― Trouxe… mas esse negócio, você já sabe… é um problema! Essa é que é a questão…

― Questão? Que questão?

Bem, aí temos um novo problema: a Questão! Quer dizer, não é tão problema assim, porque a Questão, assim como o Negócio, sabemos, ou desconfiamos, do que se trata. Mas a Coisa… a gente nunca sabe que coisa é essa!

A essas alturas, eu não sei dizer se essas coisas são pertinentes ou se esse negócio é válido. Essa é que é a questão! Pode ser que não seja importante ou pode ser que eu, quando ponho uma coisa na cabeça, acho que o negócio seja escrever uma crônica. Porque tem coisa que só sai de mim por escrito!

Aliás, esse é o meu sistema de coisa!

Aurélio de Oliveira

3 comentários

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

  1. Esse texto coisou meus miolos, mas como diziam Tião Carreiro e Pardinho, “a coisa tá feia, a coisa tá preta, que não está nas mãos de Deus, tá na unha do capeta” kkkk